Um novo olhar sobre Tarsila


A título de visita à CASACOR São Paulo, tirei uma semana para desfrutar das delícias dessa cidade, acabando por dar a sorte de pegar no MASP uma exposição temporária das telas e esboços de ninguém menos que Tarsila do Amaral. Tarsila, orgulho nacional do movimento modernista, é uma artista que sempre me fascinou, desde meu primeiro contato com sua arte na escola e - pasmem - nos antigos copos de requeijão. Apesar de saber quase nada a respeito de sua vida “fora da arte”, se é que se pode colocar dessa forma, visitar a exposição me deu uma visão mais esférica do personagem. Sempre me encantou a volumetria com uma textura quase macia que ela conseguia criar em suas obras, e a paleta quase sempre viva e colorida, que transmitia uma paz e alegria que, ao pesquisar sobre a artista, pareceram escassas em sua trajetória. Eu, por exemplo, não me lembrava de que Tarsila era a própria aristocrata, criada nas luxuosas fazendas de café de sua família, muito bem conectada a alta sociedade paulista dos séculos XIX e XX.

Foi justamente essa infância de fazenda, permeada por mitos e folclores, que a inspirou a pintar alguns de seus temas mais famosos, como a “cuca”, “boi da cara preta”, entre outros contos utilizados no campo para educar e amedrontar as crianças.

Também não sabia que seu primeiro Marido, André Teixeira Pinto, era um medico conservador que não aceitava que a mesma pintasse, o que considerava uma atividade não digna de uma mulher, muito menos “de seu padrão”. Graças às conexões de sua família, conseguiu a nulidade matrimonial que lhe permitiu casar-se com sua grande paixão, Oswald de Andrade, ícone e um dos precursores da literatura modernista brasileira e quem a inspirou a produzir as mais importantes obras de sua carreira. O Abaporu, obra emblemática de sua carreira, por exemplo, foi uma das que a artista pintou exatamente para chamar a atenção e criar um diálogo com seu futuro marido que estava desenvolvendo o movimento antropofágico na literatura.

Seu casamento foi um evento “discreto” cujos padrinhos foram o Presidente do Brasil (Washington Luis) e o governador do Estado de São Paulo (Julio Prestes) à época, o que demonstra o caráter “intimista” da celebração. Tarsila, graças aos privilégios de sua família, teve a oportunidade de estudar em escolas de pintura super renomadas, em Paris e Barcelona. No entanto, o sonho dourado começa a decair com a crise do café que trouxe, coincidentemente ou não, o fim de seu casamento. Oswald acaba por se apaixonar pela multifacetada “Pagu”, escritora ativista que tinha vários pseudônimos e chegou a ser presa cerca de 25 vezes durante o regime militar. Diante de toda essa crise existencial, que culminou em uma fase totalmente diversa de sua arte mais conhecida, Tarsila confirma Freud com uma relação nada clichê, casando-se com seu psiquiatra Osorio Cesar, que a leva para viver na União Soviética, assumindo assim sua participação de “gran fina” na política comunista.

O que dura pouco, e a faz partir para Paris com seu marido, onde precisa passar a trabalhar como pintora de paredes em construções, e viver na pele a rotina do proletariado. Vida nova, romance novo: Tarsila se apaixona novamente, desta vez por um artista 20 anos mais jovem, com quem se casa e tem uma filha. O jovem Luiz Martins, que contribuiu muito para a sua fase mais “social” na pintura.

Pouco tempo depois a artista separa novamente, sendo este seu último casamento. Tarsila passa a sofrer de fortes dores na coluna, que a levam a uma cirurgia a qual lhe tira a possibilidade de caminhar, fazendo com que, associado à morte de sua única filha em uma crise diabética, a artista desesperada mergulhe em uma jornada espiritual em busca de consolo, o que, já próximo do fim de sua vida, trás um novo amigo à cena, Chico Xavier, o qual a acompanhará até seus últimos dias. Curiosamente, nesta CASACOR (2019 São Paulo), é possível visualizar no ambiente de Michael Safatle, ao lado da cama, 6 cartas deste remetente para Tarsila. Tarsila morre em 17 de Janeiro de 1973 aos 86 anos, em São Paulo, sofrendo de uma intensa depressão (condição que a acompanha ao longo de quase toda a sua vida), associadua a complicações de sua cirurgia. Espero que tenham ficado tão surpresos e impressionados quanto eu pela intensidade da vida dessa artista tão querida e que em tanto contribuiu para o movimento artístico moderno em nosso país, pelo qual eu sou apaixonada. Para receber todos os meus conteúdos inscreva-se na minha newsletter aqui no site clicando aqui, e ative as notificações do meu instagram @studiorenatacortopassi clicando aqui! Até logo! Renata.

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